Uma introdução sobre a sexualidade

Por: Alberto Cumbi

Pretendemos neste artigo introduzir o debate sobre a sexualidade numa visão sócio/antropológica, isto é,abordar a sexualidade para além das características sexuais, anatómicas e fisiológica de homens emulheres, tomando em conta a educação sexual que homens e mulheres recebem no seu percurso biográfico.

Nesta perspectiva, não se pode falar de sexualidade sem fazer menção à forma como é construída e percebida a masculinidade e a feminilidade porque a sexualidade não significa apenas práticas relacionadas com a reprodução e a utilização do sexo, mas corresponde ao e resultados de modelos culturais que impõem um padrão normativo sujeito à vigilância social e sanções1. Isto significa que a expressão de desejo, de prazer, de carinho e de todas as emoções inerentes à sexualidade é regulada e controlada pelas noções e percepções do que é ser homem e ser mulher apreendidas.

A sexualidade e o comportamento sexual são, em todas as culturas, sujeitos aos papéis de género, à construção das identidades sociais e sexuais e, consequentemente, experimentados de forma diferente por homens e mulheres.

Homens e mulheres têm representações diferentes sobre a sexualidade: as mulheres são socialmente preparadas para viverem a vida sexual como uma experiência íntima e fortemente carregada de afectividade, que não inclui necessariamente a penetração, mas que pode englobar um vasto leque de actividades (como falar, tocar, acariciar e abraçar), enquanto os rapazes tendem a compartimentar a sexualidade, concebendo-a como um acto agressivo orientado para a penetração e para o orgasmo. A sexualidade é, portanto, para os homens, um instrumento de dominação3

Quando se fala de exercício da sexualidade está se falando de relações de poder em que certo comportamento sexual é reprovado ou estimulado em função do sexo. Costuma-se dizer “aquele tipo é vivido” para referir a um homem que tem muitas parceiras ou que muda de parceiras frequentemente mas, para o caso de mulheres que tem ou que mudam de parceiros, costuma-se dizer que são promíscuas. O mesmo comportamento sexual prejudicial que é apreciado nos homens é reprovado nas mulheres.

Estes comportamentos que são claramente sociais, por serem transmitidas de geração em geração, são construídos como naturais e inerentes à natureza biológica de homens e mulheres como pretende defender uma das teorias de masculinidade: o essencialismo. A relação entre a teoria essencialista e a sexualidade foi usada para justificar a dominação masculina.

O desejo sexual é uma necessidade biológica básica, sendo a masculina geralmente mais forte do que a feminina. Se o desejo (masculino) de ter relações sexuais é negado ao indivíduo, ele irá buscar formas ilegítimas de satisfação, tais como a violação e outros desvios sexuais.

Este olhar hierarquizado, percebido como biológica, dos desejos sexuais de homens e mulheres, justifica em alguns casos a tolerância e a normalização da traição ou do adultério masculino bem como relações poligâmicas que no contexto urbano moçambicano encontram a sua expressão nas chamadas “casa dois (2)” e a dificuldade de perceber a legitimidade de se falar de uma cópula não consentida entre cônjuges.

Há ainda tendência de desculpabilizar os violadores de mulheres e, por conseguinte, a culpabilização da vítima apelando-se a maneira de vestir. Recordo-me de um episódio inédito que assisti num transporte semi-colectivo de passageiros, vulgo Chapa, em que um senhor, aproveitando-se da superlotação do chapa, encostou-se tanto numa moça, acabando por atingir o orgasmo. Para o nosso espanto, ao invés de os passageiros sancionar o senhor, censuraram a maneira de vestir da moça, alegando que estava de saia curta e justa, portanto, provocante, sendo, nessa situação, compreensível a reacção do senhor, podendo até tê-la justamente violado-na sexualmente.

Estes tipos de comportamentos são estimulados desde a adolescência quando, por exemplo, certos pais, preocupam-se pelo facto do filho nunca aparecer com amigas em casa, temendo se que não seja “homem de verdade” mas não apreciando muito no caso da filha aparecer com muitos amigos em casa, pelo medo que fuja do modelo de mulher socialmente aceite.

Começa-se desde cedo, a diferenciação e a hierarquização das percepções de sexualidade em função do sexo.

Nota se aqui um maior controlo que se exerce sobre o corpo das meninas em relação ao dos rapazes pela família. Este controlo, é transferido para o cônjuge na fase adulta, para controlar a sexualidade da mulher (no sentido de que é o homem que muitas vezes diz quando e como fazer sexo); para controlar a reprodução (no sentido de que é o homem que, em muitos casos, dita o número de filhos e o espaçamento entre partos) e para controlar a força de trabalho (no sentido de que os trabalho domésticos são tidos na sua maioria como femininos, sendo forçoso que sejam as mulheres a exercê-los). Em suma, as percepções de sexualidade transmitidas no processo de socialização são fundamentalmente machista,facto que acaba prejudicando não só as mulheres mas também os próprios homens.

 

Breves

Acompanha uma breve reportagem em video da Deutsche Welle sobre as actividades do programa "Homens na Cozinha" no youtube da Rede Hopem.

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