Percepções sobre a sexualidade entre os cônjuges

Por Alberto Cumbi

Procuramos neste artigo discutir as percepções sobre a sexualidade com base em depoimentos colhidos nas entrevistas realizadas na cidade de Maputo entre cônjuges ambos com nível superior e um emprego remunerado. Foram entrevistados 6 cônjuges (casados ou vivendo em união de facto). Ao longo do texto os cônjuges são designados por casal 1, 2, 3, 4, 5 ou 6 e, quando se refere a um dos cônjuges designa-se esposa ou esposo 1, 2, 3, 4, 5 ou 6.

O objectivo é demonstrar que numa relação conjugal em que aparentemente vive-se uma situação de igualdade de género (porque ambos cônjuges têm acesso aos recursos financeiros e intelectuais) prevalecem situações de desigualdade. Põe-se em causa neste contexto, argumentos que associam a desigualdade de género à pobreza e sublinha o peso dos valores  incorporados no processo de socialização.

O acesso à educação e ao trabalho remunerado é importante mas não é determinante para a subversão de situações de desigualdades que se traduzem, em muitos casos em actos de violência que se podem visualizar no quotidiano das relações conjugais.

Todos os entrevistados afirmaram que costumam tomar a iniciativa de discutir sobre a sua vida sexual, em diferentes situações. Estas conversas não são, muita das vezes, planeadas. Elas surgem, quase que casualmente, no decurso das interacções quotidianas, principalmente quando os cônjuges estão a abordar questões de sexualidade que não têm nada a ver com eles. Estas discussões acabam por levá-los a fazer referência sobre a sua vida sexual. Noutros casos as conversas surgem logo depois de um acto sexual. Nesses debates, o assunto que frequentemente se discute é o nível de satisfação sexual do casal. As mulheres afirmamaram que, muitas vezes, expressam aos seus maridos o seu nível de realização sexual.

Quando a notícia é agradável, arrancam sorrisos dos maridos, mas quando é desagradável os homens, afirmam elas, sentem-se mal, diminuídos e zangam-se. Isto porque “o acto sexual é concebido pelos homens como uma forma de dominação, de apropriação e de posse. O prazer masculino é, em parte, prazer do prazer feminino, do poder de dar prazer”6.

Por causa disto, quando um homem ouve de uma mulher que não está realizada sexualmente, sente-se fracassado e a sua masculinidade fica diminuída. Isto faz com que certas mulheres simulem ou confessem um falso orgasmo para corresponderem às expectativas dos maridos, socialmente construídas7

Os homens e mulheres têm representações diferentes sobre a sexualidade: as mulheres são socialmente preparadas para viverem a vida sexual como uma experiência íntima e fortemente carregada de afectividade, que não inclui necessariamente a penetração, mas que pode englobar um vasto leque de actividades (como falar, tocar, acariciar e abraçar), enquanto que os rapazes tendem a compartimentar a sexualidade, concebendo-a como um acto agressivo orientado para a penetração e para o orgasmo8.  A construção compartimentada da sexualidade e a sua utilização como instrumento de dominação, pode ser uma das razões porque os homens disseram que poucas vezes se teriam sentido forçados a manter uma relação sexual, como revelam as seguintes entrevistas: “forçado a fazer sexo?! que me dera se me forçassem. Sempre estou disposto. A não ser que esteja doente” (esposo 2). Outro entrevistado acrescentou: “eu sempre procuro garantir que eu e a minha esposa estejamos dispostos para o acto sexual” (esposo 3).

Esta constante disposição para o sexo, embora as esposas tenham dito que, por vezes, os maridos não se encontram disponíveis, é uma expressão de poder, ao procurar mostrar que sempre têm força para manter uma relação sexual. Isto nos autoriza afirmar que o acto sexual não é só um momento de “troca de prazeres”, de demonstração de intimidades e de carinho mas, também, uma oportunidade de exibição de força, de poder e da afirmação da masculinidade.

Todas as mulheres e, raras vezes, os homens, afirmaram que já se sentiram influenciadas/os a manter uma relação sexual indesejada: “meu marido nunca me obrigou a fazer sexo mas há sempre aqueles dias em que não me apetece, mas ele vem seduz-me e acabo cedendo” (esposa 1, 2, 3, 4, 5 e 6). O termo “seduzir” pode esconder uma acção de violência sexual e psicológica reveladora de desníveis no exercício da sexualidade, nas relações conjugais. O facto de os maridos zangarem-se, ficarem mal humorados e calados, quando as mulheres não estão dispostas para manter uma relação sexual, pode aparecer como uma estratégia camuflada de poder para coagir às mulheres a satisfazerem a sua vontade.

Esta discussão leva-nos a concluir que homens e mulheres têm percepções divergentes sobre a sexualidade. Os homens têm uma representação compartimentada sobre a vida sexual, concebendo-a como um espaço não só de troca de prazeres mas também de demonstração da masculinidade. Enquanto que as mulheres olham para a sexualidade de uma forma mais ampla e envolvem um vasto leque de aspecto como carinho, conversa e atenção, que podem culminar com a penetração e o orgasmo.

Aliada a essa situação, prevalecem as assimetrias de género nas convivências conjugais, os homens continuam a obrigar as suas esposas a manter relações sexuais indesejadas através de estratégias que escondem violência verbal, psicológica e sexual, ao se recorrer, por exemplo, ao silêncio e ao aspecto facial para coagir as esposas para um acto sexual não desejado.