Ser e Não Ser Homem!

Por Júlio Langa

E muito evidente que, em Moçambique, a maior parte dos episódios de violência protagonizados no espaço público, assim como no privado, é perpetrada pelos homens. Esta situação não é muito diferente em muitos outros países de outras regiões do mundo.' Infelizmente, nem todos os sectores da sociedade moçambicana estão a encarar adequadamente estas situações como um problema de género que precisa de uma resposta imediata e consistente. No espaço público, os homens cometem violência contra outros homens e contra as mulheres. Um facto notável e preocupante é que, culpados ou inocentes, no fenómeno de linchamentos populares que têm acontecido em Moçambique, homens jovens têm sido os mais linchados publicamente por acusação de roubo ou violação sexual.


No espaço doméstico, a violência masculina tem tido como principais vítimas as mulheres. Dados do Ministério do Interior indicam que apenas no primeiro semestre de 2010, pelo menos 10 000 mulheres reportaram ter sofrido agressões masculinas. Lembre-se que estes números reflectem apenas os casos declarados, visto que muitos outros casos não são apresentados à polícia por diferentes razões, desde a acessibilidade dos serviços de atendimento às vitimas de violência até aos aspectos culturais que promovem a tolerância perante este fenómeno.

Reflectindo esta tendência de envolvimento masculino em eventos de violência, crime e estilos de vida (auto) destrutivos, tem-se verificado que, a maior parte da população prisional do país é esmagadoramente masculina. Um estudo publicado pelo PNUD em 2002,' indicou que em Agosto de 2001, cerca de 95% dos presos condenados nas cadeias da cidade de Maputo eram homens jovens. Os crimes por que foram condenados incluiam violação sexual, furtos, assaltos armados e roubo de viaturas, desvio de dinheiro e falsificação de documentos. Dados recentes da Liga dos Direitos Humanos de Moçambique mostram que esta tendência não se tem alterado, pois, até 2009, pelo menos 95% da população prisional em Moçambique era masculina. Pela mesma fonte, constata-se que, em 2009, o número de homens condenados por variadas razões é, aproximadamente, 30 vezes superior ao número de mulheres coordenadas.

Desemprego, crescimento das cidades, migração, pobreza e baixo nível de escolaridade são algumas razões frequentemente apontadas para explicar a violência e criminalidade nos espaço público. Raras vezes discute-se e .aprofunda-se o facto de os principais actores envolvidos serem do sexo masculino, nem como as ligações entre a violência e as expectativas sociais em torno do que significa ser homem. Ou seja, nunca nos perguntamos o que está acontecendo com os homens? Porque é que o crime e a' violência têm um rosto masculino? E importante recordar que os indicadores sociais e económicos de Moçambique demonstram que, grande parte da população social e conomicamente vulnerável e afectada pela pobreza é femenino Pelo que, seria legítimo perguntar porque é que, mesmo sofrendo elevadas limitações no acesso aos recursos e tomada de decisão a diferentes níveis, não são as mulheres (mas sim os homens) que mais se envolvem no crime e violência, tanto nos espaço público como no doméstico?

Reacções perante atitudes e comportamentos masculinos prejudiciais, frequentemente, resumem-se à ideia de que "os homens são assim". Assume-se que tudo isso é parte da "natureza" ou "responsabilidade" dos homens. Para se afirmarem como homens, eles devem dar "lições" às suas parceiras quando não se comportam "adequadamente", mostrar muita "atitude" e que são muito "machos". Em resumo, os homens não podem ser "matrecos". O problema é que isto traduz-se em excessiva violência e desrespeito pelos direitos das mulheres, assaltos que vitimam pessoas inocentes, condução em velocidades excessivas colocando em risco a sua vida e a de outros cidadãos, tomada de decisões importantes sobre a família mesmo que não esteja suficientemente informado sobre o assunto em causa e sem consultar os outros membros que serão igualmente afectados por essas decisões. A forte expectativa de que os homens sejam os responsáveis pelo sustento das suas famílias, num contexto de elevedas taxas de desemprego em que muitos homens não têm fontes regulares de rendimento contribui igualmente para o cenário de violência.

 

O que muitas vezes não se percebe é que acções individuais, aparentemente pequenas e insignificantes, estão na verdade interligadas por valores e expectativas generalizadas sobre o que é ser homem. Essas acções representam um encargo para o Estado, têm custos materiais e emocionais ao nível das famílias e, inclusivamente, sobre os seus próprios protagonistas. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Eduardo Mondlane mostrou que, só em 3 cidades de Moçambique, em 2008, foram gastos cerca de 44 milhões de meticais em serviços relacionados com a violência contra mulheres. Ou seja, por exemplo, o equivalente ao custo de construção de mais de 100 furos de àgua (recurso tão escasso para muitas comunidades moçambicanas). Os custos sociais e financeiros da violência masculina são certamente muito mais elevados visto que aqui não estão incluidas outras zonas do país, assim como outras formas de violência além da que é praticada sobre as mulheres.

Em grande medida, a origem de muitos destes problemas pode ser localizada na educação e formação das identidades masculinas. É claro que não se pode reduzir a explicação dos problemas da sociedade ou de comportamentos masculinos à influência dos padrões de masculiniade. Os homens não agem unicamente por influência do que está estabelecido pela sociedade. Eles fazem também as suas escolhas individuais, além de que existem outros factores explicativos associados que precisam ser analisados e abordados tais como a questão da desigualdade e exclusão social. De outro modo estariamos presenciando uma elevada, e pouco provável, coincidência estatístíca' sobre o envolvimento dos dos homens em múltiplas formas de vida auto-destrutivas e que comprometem a realização dos direitos humanos.

Para modificar estas situações é preciso reconhecer que, muitas vezes, os homens agem e comportam-se tal como se espera que eles o façam quer entre grupos de amigos(as), quer no seio das famílias e da sociedade em geral; os comportamentos masculinos são aprendidos e podem ser transformados através de processos educativos; que sendo os moçambicanos detentores, influenciados e fazedores das ricas e diversas culturas que os orientam, eles podem e estão investidos de legitimidade para advocar por/realizar mudanças construtivas; e que os direitos humanos de homens e mulheres devem ser protegidos e promovidos, tanto na esfera pública como na doméstica, da sociedade.

Não se pretende de forma alguma promover uma demonização masculina mas sim chamar à atenção e contribuir para a identificação de alternativas para um conjunto de problemas, "preveníveis". Até porque não deve ser feita uma generalização de alguns comportamentos e práticas para todos os homens. Há muitos homens que, tendo sido expostos aos mesmos valores sobre o que significa ser homem, não se envolvem em episódios de crime ou violência e possuem atitudes respeitosas e cuidadosas na relação com as suas parceiras. Pelo que, é preciso valorizar o que alguns homens fazem de positivo e reconhecer o potencial de mudança daqueles que tenham assumido ou ou assumem atitudes e comportamentos violentos ou criminosos.

Por estas e outras razões, a igualdade de género, e a necessária transformação dos papéis de homens e mulheres que a acompanham na sociedade moçambicana, tem de ser vista e promovida como um esforço de interesse público com benefícios não só para as mulheres mas também para a redução da vulnerabilidade masculina associada ao género, melhoramento da qualidade de vida em Moçambique e progressiva realização dos direitos humanos para todos e todas!!!

 

Breves

Acompanha uma breve reportagem em video da Deutsche Welle sobre as actividades do programa "Homens na Cozinha" no youtube da Rede Hopem.

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