Em busca do Entendimento da Masculinidade: uma introdução ao conceito do Masculino

Por: Diogo Milagre

Nas últimas décadas, as discussões impulsionadas pelo movimento feminista em torno das questões ligadas à igualdade de género, não têm deixado de espevitar uma discussão para o melhor entendimento do papel do homem a partir dos caracteres que identificam e definem a masculinidade.

A transformação social para uma verdadeira igualdade entre mulheres e homens nos domínios da vida social é premissa fundamental para a realização da justiça social e para que os direitos humanos que assistem a cada ser humano a partir do seu nascimento completo e com vida, passem ao verdadeiro usufruto dos membros da comunidade, independentemente da sua origem, raça, estatuto social e sobretudo sexo.

A masculinidade que é o contraposto da feminilidade vai para além da natureza biológica do ser homem, traduzida pelo corpo reunindo os seus atributos naturais distintivos do ser homem, desde o órgão genésico masculino, passando à fisionomia muscular, com destaque para os ombros mais largos e firmes, entre outros.

Não há dúvidas que na acepção freudiana, a diferença entre homens e mulheres começa mesmo a destacar-se por aquilo que considera ser “a distinção anatómica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica aí envolvida”, como a enunciar que a vertente anatómica condiciona a classificação psicológica do ser masculino ou feminino.

Mas, ainda que tal distinção tenha iniciado na psicologia, é de facto no campo sociológico, sobretudo do retrato da construção  social da nossa identidade que tais diferenças se destacam, graças aos estudos que evoluem um pouco depois da revolução burguesa do século XVIII, que constitui um marco fundamental da deslocação, por assim dizer, do lugar da mulher, então reservado à esfera doméstica para a vida pública.

Com efeito, vista a diferença a partir da construção social da nossa identidade cujo ponto de incidência distintivo assenta nos papéis sociais reservados ao ser masculino e ao ser mulher, a masculinidade estrutura-se a partir de expectativas sociais, tal como refere Edinilsa Ramos de Sousa (2004) “hegemonicamente associadas a um conjunto de ideias e práticas que identificam essa identidade à virilidade (importa aqui destacar que a questão da virilidade e potência masculina constituía já um valor civilizacional na sociedade helénica, com o culto do corpo a ganhar uma dimensão e  notoriedade espectaculares, com os cultos dos deuses a conferirem-lhe sentido mitológico, daí a figuras como Hércules, mas acima de tudo, no mito da estática a figura do Narciso)  à força e ao poder advindos da própria constituição biológica sexual”.

A masculinidade também foi sendo encarada e sedimentada por uma concepção de homem sinonímica de bravura, força, poder e dominação, que se traduzem em “não ter medo, não chorar, não demonstrar sentimentos, arriscar-se diante do perigo, demonstrar coragem e ser activo”.

Mas, ainda nesta perspectiva da conceituação da masculinidade a partir da construção social da identidade e das diferenças sociais, o conceito género, ao ser introduzido no vocabulário moderno pelas feministas, enfatiza o lado relacional das definições normativas da feminilidade e da masculinidade. Esse entendimento parte da essência de que as relações de género influenciam directamente na formação do homem e da sua masculinidade. Willian Tito Maia Santos (2007) infere mesmo que “ao estudar as condutas humanas e sociais sob o enfoque do género, percebe-se que, para se avaliar as diferenças entre homem e mulher, deve-se fugir do senso comum e ultrapassar as comparações com base em determinações físico-biológica ou sexuais”.

É, pois, a busca do lado relacional das identidades que evidencia não apenas uma masculinidade mas várias masculinidades, numa visão dinâmica que identifica e estratifica a masculinidade hegemónica que, segundo Sofia Aboim (citando vários articulistas renomados sobre a matéria), é “uma forma dominante, heterossexual, patriarcal, compulsiva e que tem ascendentes sobre as outras: subordinadas (como é o caso da homossexual), cúmplices ou mesmo marginalizadas (como acontece com minorias étnicas ou grupos socioeconomicamente excluídos)”.

A masculinidade, como acima dito, não é redutível o que o invólucro anatómico deixa perceber. É mais do que isso e o seu entendimento deverá estender-se ao entendimento dos elementos da cultura, da consciência social e dos paradigmas de relacionamento e relacionamentos sociais, que variam de uma sociedade para outra, de um meio para outro, confirmando, assim, haver, de facto várias masculinidades, que evoluem e se transformam à medida que a própria sociedade em que se moldam também sofre mutações.