Sexta-feira dia do homem?

Por Lino Macuácua

Os debates sobre as desigualdades de género assentam na ideia de que o status e papéis atribuídos socialmente a homens e mulheres são diferentes e diferenciadores. Isto é, relegam as mulheres à submissão e aos homens à dominação. Estas atribuições de posições diferenciadoras ocorre em vários espaços e contexto de socialização como a família, o trabalho, os locais de diversão (Barracas, Bares, Restaurantes, etc.).

Este artigo procura apresentar a forma como as percepções sociais sobre “sexta-feira” tida, ao nível da linguagem do senso comum, como dia do homem constroem as desigualdades de poder e estruturam as relações conjugais. Dito de outro modo: como é que os discursos e práticas construídas em torno deste dia dão corpo ao habitus (conjunto de disposições geradoras de práticas, acções e gostos específicos) que conforma e força as mulheres aos espaços domésticos e aos trabalhos domésticos e privilegiam a barraca, o bar, a bebida, o lazer como ideais masculinos.

O artigo foi elaborado com base num estudo de caso realizado na cidade de Maputo, bairro de Malhangalene, nos seguintes bares e ou restaurantes: Confiança, Chaló, Alfacinha, Zambeziana e Sindarela. Foram entrevistados no total 11 informantes dos quais 7 homens, todos em situação de conjugaldade, 4 casados e 3 vivendo em união de facto e 4 mulheres, 2 casadas e 2 solteiras.

O método privilegiado foi o qualitativo uma vez que o estudo foi ao nível das percepções e práticas em torno da sexta feira e, a perspectiva de análise foi construtivista recorrendo-se à teoria feminista e à teoria de habitus desenvolvida pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu.

A premissa chave deste estudo assenta na ideia de que as percepções sobre sexta-feira exteriorizam as desigualides de género que se revelam ao nível das relações conjugais ou amorosas ao impossibilitar, em muitos dos casos, às mulheres (Mulheres percebidas e ou que se percebem a luz do ideal feminino.) de gozarem de lazer e diversão nos locais de diversão durante as noites das sextas-feiras.

Essa “negação” se promove pelo facto de esses locais serem considerados como espaços masculinos e a noite como hora masculina. Com efeito, as mulheres que frequentam esses espaços são representadas socialmente como “não mulheres”, isto é, mulheres desviadas, não “apreciadas” socialmente para serem mães e esposas, o ideal feminino construído em relação à todas as mulheres., como mostra o seguinte depoimento de um homem entrevistado na barraca Confiança: “Meu filho existe mulheres e mulheres. Existe aquela mulher do Luso, existe mulher do Araújo, existe mulher da barraca e existe aquela nossa mulher que se dá ao respeito de ficar em casa, essa não frequenta a barraca”.


A realidade “Sexta-feira dia do homem” exterioriza diferenças, discriminação e subalternização da mulher exteriorizando os fundamentos da dominação patriarcal que reforçam o poder masculino e restringem a mulher ao espaço doméstico. Essas desigualdades são demonstradas pelo facto de a sexta-feira ser designada dia do homem, e não “permitindo” que os homens geralmente se façam acompanhar com suas esposas nas diversões nocturnas.

A sexta-feira é tida como dia do homem e, pode se chamar também como o dia da Outra (Amante do homem casado). Ou seja, da amante, da mulher da rua Araújo, do luzo e da barraca. Mulheres essas que podem ser “possuídas” como meros objectos de satisfação de prazeres, desenvolvendo com os homens laços não duradoiros. Nesta situação, percebe-se que o amantismo é vista como privilégio ou pelo menos tolerável para os homens.

O homem, seja ele cônjuge ou namorado, pode sair para se divertir com as outras mas a mulher namorada ou dona de casa já não. Esses comportamentos para além de subalternizar às mulheres, colocam os homens numa situação perigosa de auto destruição: dependência alcoólica, contracção do vírus de HIV/SIDA, pondo a sua e a saúde da família em risco. Situação aparentemente divertida pode por em causa o desenvolvimento harmonioso de muitas famílias. Algumas mulheres resistem a esta situação, exigindo que os seus cônjuges não se façam às barras desencadeando uma situação de relações de poder onde o homem não só vai às barracas para se divertir mas ainda para mostrar que pode ir, podendo resultar em situações de violência.

A sexta feira não é dia do homem mas sim uma estratégia masculina para reforçar as relações de dominação, legitimando-se a restrição das mulheres em espaços construídos como femininos, controlando o seu comportamento e corpo.

 

Breves

Acompanha uma breve reportagem em video da Deutsche Welle sobre as actividades do programa "Homens na Cozinha" no youtube da Rede Hopem.

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